Crônicas de Isabela #2

Da última vez que vimos Isabela, ela tinha concluído que ela era o problema e que realmente todos estavam certos: ela era gorda e deveria se envergonhar por isso.

Passava já do meio-dia daquela terça-feira e Isa almoçava com os pais. O pai, Ricardo, falava sobre o novo funcionário incompetente que contrataram na empresa enquanto a mãe, Marta, ria da falta de paciência do marido. Isa só escutava, até que sua mãe cortou o assunto.

– Isa, daqui 5 meses você completa 15 anos. Precisamos correr atrás dos preparativos da sua festa de debutante. O que você acha de pesquisarmos vestidos hoje?

Isa detestou a proposta. Não havia algo no mundo que ela odiasse mais do que comprar roupas. Nunca tinham seu número, ou quando tinham, eram roupas tão simples e sóbrias que ninguém da sua idade usaria. Ela queria usar vestidos de verão ou blusinhas de renda, mas só encontrava bermudas e camisetas que mais pareciam masculinas do que femininas.

– Claro, mãe, vamos sim. – Isa soltou quase que num suspiro.

A mãe sabia que aquilo não a agradara, mas tinha esperanças que achariam um vestido tão lindo ao ponto de fazer Isabela mudar de opinião.

Terminaram o almoço e Isa ajudou a lavar a louça. Saíram para o centro comercial logo depois. Entraram na primeira loja de vestidos de festa.

– Desculpe, não temos tamanhos especiais. – Disse a vendedora.

Isabela engoliu seco. “Tamanhos especiais?”. Entraram na segunda loja.

– Perdão senhora, mas não trabalhamos com plus size.

“Plus size??”. Isa sentiu lágrimas vindo aos olhos. “Não chore, Isabela, não chore!”.

– Isa, me lembrei de um estilista. O que você acha de mandarmos fazer um vestido sob medida pra você? Você pode escolher todos os detalhes!

– Pode ser…

O estilista se chamava Laerte. Era baixo e calvo, Isa chegou a achar engraçado, ele até parecia um hobbit.

– Queremos um vestido especial para uma debutante mais que especial. – Disse dona Marta, tentando agradar.

– Mas é claro! Que tema será a festa? – disse o hobbit escolhendo a fita métrica que usaria.

– Hmm, eu queria algo estilo lual, flores e tudo mais. – Isa sempre quis que a festa fosse temática.

– Vamos fazer algo livre, nada rígido. – Laerte começou a fazer o croqui – O vestido tem que voar enquanto você anda. Mas, fofinha, que tal perder uns quilinhos até o mês da festa? O vestido ficaria perfeito se você emagrecesse uns 10 quilos, que acha? Olha, eu mesmo posso te indicar uma ótima nutricionista e um personal trainer que fará você ficar em forma rapidinho! – Laerte disse isso soltando uma risadinha quase que irônica.

Isabela percebeu que não era ela que estava no croqui. Era um modelo, esbelta, magra. Seria qualquer pessoa, menos ela. Sentiu os olhos marejarem novamente. Não sabia se sorria e concordava, ou se ficava brava, ou…

– Não, obrigada! Vamos embora, Isabela. – e dona Marta salvou o dia.

No carro, voltando pra casa, a mãe de Isa esbravejava sobre como ia processar o hobbit estilista, falava coisas do tipo “como ele tem coragem” e “ele vai responder na justiça”. Isa estava longe, mal escutava o que a mãe dizia. Pensava no porquê de fazer uma festa de debutantes, se não tinha amigo algum para convidar. Se fosse pra passar por tudo isso apenas pra encontrar um vestido, ela preferia não fazer nada.

– Mãe, eu não quero uma festa de debutante…

Dona Marta sentiu toda a dor da filha naquela frase, queria poder falar qualquer coisa que fizesse ela se sentir melhor, mas ela sabia que de nada adiantaria. “O mundo é cruel demais para uma menina de quase 15 anos”, pensou. Via os olhos da filha se encherem de lágrimas e teve saudades de ver as covinhas que se formavam quando ela sorria.

– Isa, você sabe o quanto você é linda? Seu pai e eu te amamos no momento em que soubemos da sua chegada. Eu sempre fui apaixonada pelo seu nariz arrebitado e seus cachos bagunçados. Você é uma princesa, podemos achar um vestido de princesa para você.

– Princesas não são gordas. – Isabela segurava o choro com todas as suas forças – Por favor, mãe, eu não quero mais uma festa de debutante.

A mãe não tinha mais respostas, não sabia mais como agir.

– Tudo bem, Isa, como quiser. – Aceitou, enfim, a mãe. “O mundo é cruel demais para uma menina de quase 15 anos”.

Isabela checava o celular tentando aparentar desinteresse, recebeu uma mensagem da Mayra, sua amiga virtual. Nunca tinham se encontrado, mas falavam todos os dias já há alguns anos.

“E aí, achou o vestido?” – dizia a mensagem.

“Não.” Respondeu Isa, e ficou por isso mesmo. Mayra sabia que a amiga não gostava de conversar quando não se sentia bem.

Naquela noite, Isa não quis jantar. “Estou sem fome” e subiu para o quarto. Colocou um filme no DVD, o primeiro que viu na frente, e se deitou na cama. No momento em que colocou a cabeça no travesseiro, as lágrimas correram. Ela havia segurado o dia inteiro. Grudou o rosto no travesseiro e soltou um grito, que saiu abafado. Respirou. Olhou para a parede, viu os pôsteres de todas as atrizes que em nada se pareciam com ela. E gritou novamente abafando no travesseiro. Caiu no sono um pouco depois de trocar a fronha molhada. Não teve sonho algum, apenas um sono tão denso quanto o fundo do oceano.

O despertador tocou como sempre às 6h15. Isa se arrumou e tomou café. O pai a levava para escola todos os dias. “Tchau mãe, até mais tarde”. Assim que entrou na sala, viu que o dia não estava normal. Samantha, a garota mais popular da escola, que por um infortúnio do destino era da classe de nossa protagonista, estava entregando os convites de sua festa de 15 anos. Samantha era linda, não parecia ser da idade que tinha. Cabelos ruivos tingidos, lisos até a cintura, uma pele impecável, olhos verdes intensos. Já tinha seios firmes e uma cintura que só se via em passarelas.

“Alguém lá em cima deve me odiar.” – Pensou Isa, quase em voz alta.

É claro, todos estavam convidados, menos Isabela. Samantha fazia questão de deixar isso bem claro. Isa não se importou. “Eu não iria mesmo”.

O sinal tocou e todos se sentaram no momento em que a professora da primeira aula entrou na sala. Duas pessoas, um garoto e uma garota, bem parecidos, a seguiam.

– Classe, esses são Lucas e Luana. São irmãos gêmeos e serão seus novos amigos. Vocês podem se sentar perto da Isabela. – Disse a professora apontando para os lugares vagos atrás e ao lado de Isa.

Luana se sentou atrás e Lucas ao lado. Isabela sentia a cara queimar de vergonha ao ver Lucas. Ele tinha óculos grossos e cabelos lisos, que mais pareciam ser cortados com o auxílio de uma tigela. Ele sorriu para ela, ela corou.

– Isabela, né? Eu sou o Lucas! Posso te chamar de Isa? Essa é a minha irmã Luana, ela consegue ser insuportável de vez em quando, mas é boa em biologia. Eu adoro matemática.

“Ele gosta de matemática, assim como eu” – Isabela soltou um sorriso de canto de boca.

– Não ligue para o idiota do meu irmão! – Luana tinha os cabelos na altura do queixo, repicados e desordenados, como um desenho. – Prazer Isabela, somos novos na cidade.

– Pr-prazer. – Engasgou Isa, nunca haviam falado com ela daquela forma – Podem me chamar de Isa, sim. Eu também adoro matemática, mas gosto de biologia.

Samantha interrompeu a conversa, levando dois convites de sua festa para os novos colegas de turma.

– Como vocês parecem ser legais, aqui estão os convites da minha festa de aniversário. Será em um hotel fazenda durante o fim de semana inteiro. – Disse Samantha, quase que num deboche para Isabela.

– Que demais! – Exclamou Lucas – Você também vai né, Isa?

– Essa gorda no meu aniversário? – Gargalhou Samantha – Claro que não! Ela iria comer o bolo inteiro e não sobraria nada para nós.

Luana fitou Samantha, já tinha visto pessoas assim e não aprovaria aquela atitude. Isabela estava de cabeça baixa, contando de 1 a 100. Ela sempre fazia isso quando queria que algo ruim acabasse logo.

– Então nós também não vamos, pode ficar com seu hotel fazenda. Certo, Lucas? – Disse Luana, de supetão.

– Certo! – Concordou Lucas.

Isabela arregalou os olhos para aqueles dois. Nunca alguém na escola a defendera daquele jeito. Chegou a desconfiar. “O que está acontecendo?”, pensou. Samantha bufou, arrancou os convites das mãos dos gêmeos e saiu pisando firme.

– Que garota idiota! Não acha, Isa? – Luana sorriu.

– Com certeza! – Isabela retribuiu com uma risada abafada.

Chegando em casa, Isa foi correndo encontrar a mãe, que estava lendo um livro no escritório. Ela chegou quase sem fôlego e dona Marta poderia ter caído da cadeira se não tivesse levantado antes para guardar o livro na estante.

– Meu Deus, Isabela, o que aconteceu?

– Mãe, eu quero um vestido azul. E flores, muitas flores no salão. Podemos contratar uma banda? Uma festa de debutante precisa ter uma banda. Podemos, mãe? O bolo pode ser de merengue? Eu amo merengue!

E lá estavam as covinhas, fundas, quase que cravadas no sorriso de Isabela.

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E então, o que acharam da Isa até então? Ganhou dois amigos novos, já faz planos pra sua festa de 15 anos…

Mesmo depois de todo o sofrimento para encontrar um vestido.

O que planejo com tudo isso é trazer a reflexão de como a moda é extremamente padronizada e injusta, deixando de fora pessoas como eu, como a Isa, e como milhares de pessoas por todo o mundo.

“Mas Mari, agora temos moda plus size”. Sim, tô ligada. Eu detesto esse nome.

Desculpe-me galera da moda, mas isso não me desce. Por que gordo tem que ser separado do rolê? Por que não podemos chamar simplesmente de moda e incluir todos os tipos de corpos? Busto grande, pequeno, coxão, bundinha, barriga tanquinho, barriga de chopp, canela fina, ombros largos…

São tantos tipos físicos, tantas diferenças e harmonias. A natureza não seria assim se fosse errado. Eu tentei procurar imagens de vestidos de debutante para gordas. Não achei. Posso concluir que:

  1. Eu não sei pesquisar no Google.
  2. Gorda (para estilistas) = peito grande e cintura fina.

Por sorte, tenho certeza que Isabela encontrará o vestido perfeito para ela, para que as covinhas continuem exatamente onde estão: emoldurando um sorriso largo.

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