O que não é o feminismo

Minha mãe nunca me disse, com essas palavras, “filha, eu sou feminista”. Mas ela era. Eu sei disso, porque até uma certa idade da minha vida, nunca tinha passado pela minha cabeça que mulheres eram tratadas de maneira diferente do que homens. Ela nunca me deu um kit de cozinha/faxina/casinha por um motivo muito simples: eu nunca pedi. Minhas amigas brincavam disso toda hora, e tudo bem, eu só não estava interessada. Não tinha nada a ver com gênero, tinha a ver com vontade.

Assim como a profissão dela não tinha a ver com gênero. Nem os hobbies. Quando eu tinha uns 8 anos, minha mãe comprou um jeep para fazer trilha off road porque ela quis. E quando eu contava para as pessoas que ela fazia trilhas, eu não entendia por que todo mundo me olhava com cara de espanto e perguntava: “mas é o seu pai que dirige, né?”. Ué, mas por que meu pai iria dirigir o jeep se esse era o hobby da minha mãe?

Ela acordava cedo, se vestia muito bem, colocava salto e nos levava para a escola. Depois, ia tomar café na padaria, onde fazia o social de todas as manhãs. Ela trabalhava, feliz, e à noite tomava vinho ou cerveja. Um dia nós saímos juntas para beber, e chamamos um táxi porque ninguém queria ser a motorista da rodada. Ela fazia as unhas todas as semanas, assistia futebol no estádio de São Carlos, comprava sapatos na Arezzo e os vestia para ir ao boteco comer um bolovo.

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O dia que não quisemos ser motoristas da rodada

Nada disso era conflitante para ela. Ela fazia o que ela tinha vontade, e fim. Eu aprendi com ela que não existe um conflito “fazer as unhas” x “assistir futebol no estádio”, ou “Arezzo” x “bolovo”. Aprendi que eu podia fazer o que eu tivesse vontade, desde que eu tivesse vontade de fazer aquilo.

Só que, conforme eu fui crescendo, fui aprendendo que a vida não era bem assim. “Você quer mesmo fazer engenharia? Quantos homens tem na sua sala?”; “Você veio na festa só para olhar?”; “Gostosa”. Nessa mesma época descobri o feminismo, que era um nome para a prática que minha mãe tinha me mostrado por tantos anos.

Feminismo é um movimento social e político que tem como objetivo conquistar o acesso a direitos iguais entre homens e mulheres e que existe desde o século XIX. (Carta Capital, 9 de nov de 2015)

E nesse tal de feminismo, eu encontrei respaldo para tudo o que eu já tinha em mente: continuar sendo uma pessoa cujo gênero não é um obstáculo para atingir os objetivos. E na verdade, era aí que eu queria chegar. Muita gente tem confundido as coisas. Tem antifeminista falando que o hobby de feminista é abortar. Tem muita feminista crucificando mulher que prefere uma vida mais “tradicional”. Às vezes, na minha própria cabeça, eu entro em conflito. A gente tá fugindo do ponto, que é a liberdade da mulher de ser o que ela quiser.

Por isso eu quis fazer uma lista de algumas coisas que não são feminismo. Para me lembrar, e lembrar quem também tiver interesse, do que é e o que não é “igualdade dos sexos”:

  • Feminismo não é condenar donas de casa, é esclarecer que há outras possibilidades de futuro, e que as opções estão abertas. A militância é pela informação, não para humilhar mulheres que optam por trabalhar em casa;
  • Feminismo não é boicote à maquiagem, é o esclarecimento de que os padrões de beleza não devem nos guiar. É entender que a indústria de beleza cria padrões inalcançáveis, mas que ainda assim não tem problema se você se sente melhor maquiada. E não tem problema se o seu colega homem cis hétero também se sente melhor maquiado;
  • Feminismo não é ter que deixar todos os pelos crescerem para sempre, é esclarecer que assim como os homens, as mulheres não precisam se depilar por imposição da sociedade. E os homens podem se depilar. Todo mundo tem os pelos que quiser;
  • Feminismo não é “obrigar” os homens a “ajudar” nas tarefas de casa, é dividir o trabalho de maneira que nenhum saia prejudicado;
  • Feminismo não é ter que transar no primeiro encontro, é não deixar de transar por medo da reputação. Pode demorar pra transar, contanto que seja isso o que você quer. Além disso, é não humilhar o homem que preferiu esperar outro momento, porque esperar é um direito de todo mundo;
  • Feminismo, por definição, não é odiar homem;
  • Feminismo não é só uma batalha de rua para ativistas, é também uma batalha cotidiana a favor da igualdade de gênero, de orientação sexual, de cores, de tipos de corpo, etc, etc..
  • Etc, etc..

Em conversas do cotidiano, já me peguei distorcendo essas coisas. Na maior parte delas, confundindo o feminismo com uma doutrinação da forma que a “mulher moderna” tem que se comportar. Fazendo isso, fui completamente contraditória à essência do movimento.

E o que me levou a escrever esse texto foi um momento de conflito interno, onde eu acho que minhas próprias ações não condizem com o título “feminista”. Fui buscar a memória da pessoa mais sensata: qual conselho minha mãe me daria agora, para lidar com esse momento? Provavelmente ela me lembraria que esse título não me obriga a fazer nada que eu não queira. Me diria para seguir meu tempo, e não confundir as coisas. Se hoje eu posso fazer coisas (estudar, trabalhar, votar, casar, ter filhos, amar) no meu ritmo, tenho muito a agradecer ao feminismo (e à minha mãe, claramente).

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Respostas de 2

  1. Parabéns….que lindo texto…amei….
    Sua mãe sempre será lembrada da melhor forma possível.. .. fazemos oq queremos e oq temos vontade.. ..nada nós obriga a nada….
    Beijos saudades

  2. Nossa, que texto maravilhoso! Não tem uma vírgula pra tirar ou colocar! Parabéns Ane, sua mãe era maravilhosa e criou duas mulheres maravilhosas!

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